Em Portugal, existem neste momento vitórias na luta contra o cancro da mama?
_Existem duas situações: o cancro da mama precoce, que é diagnosticado cedo, e para o qual conseguimos hoje uma taxa de cura à volta dos 70 por cento; e o cancro da mama avançado,localmente ou com metástases à distância, que continua a ser uma doença incurável, não obstante existirem várias opções de tratamento e terem sido conseguidos pequenos avanços.
Um dos objetivos da sua investigação é fazer do cancro da mama avançado uma doença crónica. Ainda está muito longe?
_Neste momento, a sobrevida média do cancro da mama avançado são dois a três anos. Quando chegarmos aos 10, 20 anos, podemos falar de doença crónica. O cancro da mama não é uma doença, são várias. Os avanços da biologia permitiram-nos caracterizar pelo menos três grandes subtipos: o hormonodependente; o HER2 positivo, que depende de um recetor muito específico, contra o qual temos medicamentos novos; e o triplo negativo, com o pior prognóstico e contra o qual apenas temos a quimioterapia.
Qual é o mais comum?
_É o hormonodependente. Para este temos medicamentos dirigidos ao tumor. Um dos tratamentos mais antigos contra o cancro da mama é a hormonoterapia. Descobriu-se há mais de dois séculos que a ablação dos ovários fazia diminuir alguns tipos de tumor e daí começou a desenvolver-se a hormonoterapia. O medicamento que provavelmente mais vidas salvou chama-se tamoxifeno, começou a ser usado nos anos 1970 e é dirigido contra os recetores hormonais. Embora não seja 100 por cento específico, é mais dirigido às células tumorais e por isso tem menos efeitos secundários do que a quimioterapia.
Quimioterapia, radioterapia, cirurgia. É nisto que as pessoas pensam quando pensam em tratamentos oncológicos. O que há de novo para tratar o cancro da mama?
_Quando falamos de cancro precoce, a cirurgia é indispensável, antes ou depois da quimioterapia, dependendo do tamanho do tumor e da sua biologia. Para os triplos negativos, a única arma é a quimioterapia. Nos HER2 positivos, em cancro precoce, é necessária quimioterapia e os tais tratamentos dirigidos – um deles, o mais conhecido, é o trastuzumab. A quimioterapia pode ser o primeiro tratamento para reduzir o tamanho do tumor e, quando possível, evitar mastectomias, fazendo uma cirurgia conservadora. Um dos grandes avanços tem sido identificar, nos tumores dependentes das hormonas, os que não precisam de quimioterapia.
E como se consegue isso?
_Há uma década, começou a perceber-se como se sobre tratava o cancro da mama. Em caso de dúvida, prescrevia-se quimioterapia. Sobretudo com a descodificação do genoma humano, é possível determinar o «bilhete de identidade» do tumor, através de testes genómicos, o que nos permite diferenciar dois grupos: um que tem um prognóstico muito bom e não precisa de quimioterapia e um que tem um prognóstico menos bom e que pode ser melhorado com esta. Isto pode levar a uma redução de 15 a 20 por cento do uso da quimioterapia. Claro que, quando há um benefício importante, tem de se fazer a quimioterapia, até porque hoje já não é tão difícil como era há 20 ou 30 anos: há medicamentos muito melhores para combater as náuseas e os vómitos e para impedir a diminuição de glóbulos brancos e o risco de infeções.
Esses testes estão acessíveis a todos?
_Não. Na Fundação Champalimaud, fizemos um simpósio, para o qual convidámos representantes de todos os subsistemas de saúde e seguradoras, para explicar o benefício desses testes, que além da validação científica, através de muitos estudos e ensaios, têm visto comprovadas as vantagens no que respeita à relação custo-benefício. O NICE – National Institute for Health and Care Excellence –, no Reino Unido, aprovou um deles, e aqui ao lado, em Espanha, há várias regiões em que o sistema público de saúde comparticipa. Ao poupar na quimioterapia não só se poupa o custo desta como o de todos os efeitos associados: a mulher não precisa de estar de baixa, por exemplo. O preço do teste, que ronda os três mil euros, acaba por ser compensado. Neste momento, ainda não é suportado pela maioria dos subsistemas e das seguradoras e também não está acessível no Serviço Nacional de Saúde.
Mas são esses testes que permitem o tratamento
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